quinta-feira, 22 de março de 2012

Abrindo a pestana

As mulheres do Cais do Sodré querem atenção. Sabem que sabes que estão a olhar para ti. As mulheres do Cais do Sodré não temem a rejeição. “Mais perdes, palerma”. As mulheres do Cais do Sodré deixam-se ver sobretudo durante a semana, quando podem ser mais como são. Põem-se bonitas naquele tipo de desleixo vaidoso. Entram em calças pretas impossíveis de tão justas e erguem-se quase meio palmo em botas-ameaço. Raramente têm frio. Em última análise sentem-se sós e não podiam estar menos interessadas no desconcerto dos Ena Pá 2000 versão Homer Simpson sem cerveja que está a acontecer na Pensão Amor, onde entraram sem dar conta disso. Estão ali porque gostam do nome e há um fresco falso por cima do balcão do bar que compreendem ser mais belo do que tudo o que sempre lhes foi dado a conhecer por verdadeiro. As mulheres do Cais do Sodré rodopiam por cima dos esguichos de cerveja em copo de plástico amolgado que vão besuntando a pista de dança de cima do Roterdão ao mesmo tempo que passa o Eyes Wide Shut sobre a cabine do DJ, que por sua vez devora prosa profana em dimensões bíblicas no Dia Mundial da Poesia, entre Kinks e Strokes. As mulheres do Cais do Sodré gostam de te ver acompanhado e certificam-se de que te apercebes disso. Tu e quem te acompanha. Despedem-se com covas no rosto e promessas de amanhã.

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