quinta-feira, 6 de junho de 2019

Talvez

  
Talvez em Lisboa haja o direito a ser melancólico. Pode-se ter 20 ou 30 anos e ouvir música clássica, é normal, muito do que não pode ser previsto acontece desde que saímos de casa, o bom e o mau aparecem em força, misturam-se num sentimento mestiço que ao fim do dia nos molda num certo jeito de não estar alegre, sem estar propriamente triste, se o olhar está cansado também é sereno, o dia acabou e o tempo que foi para os outros passa a ser, enfim, para nós.

Em Lisboa temos de estar preparados para lidar com muitas coisas que não controlamos, é a chuva e a distância, é o trânsito e a distância, é o metro e a distância - e é normal que um gajo se sinta assim, dá-lhe para ouvir música clássica porque, de alguma forma, a música clássica é a resposta a essa distância, mas em coisa boa, na procura da paz vagamente perturbadora que a solidão de uma cidade grande traz.

Tenho saudades de ir à Cinemateca ver um filme francês ou italiano, um filme antigo, intenso, que dizia tudo sem dizer nada, ir num dia de folga, sem preocupações, leve, leve e ficar a pensar naquilo no caminho para o metro, com as peças do puzzle a montarem-se devagarinho, com alguma dificuldade, na minha cabeça aérea, muito por conta dos comentários do João Bénard da Costa aos filmes, reunidos em folhas A4, que apanhávamos numa mesinha à entrada da sala, ou à saída, sei lá. Sinto falta do toque de chamada para o início dos filmes na Cinemateca - ser chamado pela Judy Garland para entrar num lugar sobre o arco-íris não é a mesma coisa que olhar para as horas no telemóvel e perceber que está na hora de entrar na sala porque o filme vai começar. 

E o Rui que precisa de escrever - não se escreve só por se gostar, é preciso precisar - também sente falta desse Rui, ou então não, nada serve de desculpa e talvez sejam só estas dores nos rins e a perspetiva de que num ápice tudo se esvai que me dá para isto de recuperar a beleza das coisas.

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