terça-feira, 6 de novembro de 2007

Serbia

Sugestão de acompanhamento musical:
Bulgarian Chicks - Balkan Beat Box

A viagem foi longa.
Exaustos, o facto de termos chegado foi, por si só, um triunfo – entre nós emergia uma sede triunfal por destruir fígado e petiscar simpatias. Tínhamos prioridade.
As ruas eram frias, piso em barro de lama, sempre noite e as pessoas observavam – estupefactas – o nosso alheamento turístico perante o rebentamento compulsivo de bombas ao redor da cidade. Talvez uma vila, no Kosovo.

O entusiasmo era grande, como convém nestas fugas ao lento assassínio quotidiano chamado rotinatédio. A rotinatédio é um problema com solução e, no caso, passaria por vários motivos que desde logo captaram o nosso interesse. Nem que fosse a análise estética aos habitantes daquela localidade, tão distante de acordo com o sexo de cada um.
Os homens tinham um aspecto carnavalesco, de servente embrutecido pelos modos do seu pedreiro – usavam bonés publicitando bombas de gasolina e um bigode privado de companhia capilar no rosto. Nunca cruzavam o seu olhar com o nosso. Já as mulheres eram vaidosas e deslumbrantes - explodindo de brilho por cada raio de luz artificial que lhes descia sobre o rosto atrevido.

Percebi isso certa noite, em que os tentáculos mortíferos da rotinatédio haviam conseguido agarrar o nosso entusiasmo pela diferença. Uma noite em que o rebentamento de bombas já era visto como acontecimento prioritário, o fígado seria tratado como um menino e petisco de simpatias, nem vê-lo.
O caminho entre Alvor e a Praia da Rocha tinha sido transferido para esta vila, onde rebentavam bombas entre semi-deusas, semi-nuas, (semi-louco senhor doutor). E numa noite em que regressávamos a casa, frustrados pela falta de diversão que aquele local, afinal, parecia proporcionar aos seus visitantes, tomei a dianteira do nosso grupo numa fuga filosófico-amuada pela noite. Nunca vi céu tão pouco estrelado numa noite de lua cheia. Dir-se-ia que não teve coragem para se vestir de gala no andar de cima, quando a cave estava em guerra. (Se assim foi, aqui fica a minha mais sentida vénia).

Vejo um grupo de três raparigas aproximar-se. Chegam e perguntam-me, sem rodeios, se queria ficar com elas. O discurso pareceu-me selvagem, docemente primitivo e a resposta voltou em gesto quando dei a mão a uma delas, com olhos celestiais. Além de me parecerem perfeitamente tresloucadas, partilhavam traços que desde logo o nosso grupo (de pessoas sem rosto) - que entretanto se juntara - rapidamente teve como consensuais: perturbadoramente belas e com uma demanda comovente pelo pénis desconhecido.
E assim foi, logo que entrámos nos carros das meninas que – durante o caminho – percebi serem sérvias. Bem, na verdade fui só eu que o resto do pessoal tinha, de algum modo, o seu transporte. O trajecto foi engraçado e, passados cerca de 30 minutos, chegámos ao cimo de uma colina que me parecia claramente situada noutro planeta. Aí, o reencontro com os meus amigos e um estranho ritual no qual todas as pessoas se dividiam em grupos para ir urinar – encosta abaixo. Como ritual pré-jantar, pensei, ao contemplar uma enorme mesa que ali se encontrava, repleta de simpatias e cheia de potencial para destruir fígado. Quando regressei ao alto da colina, uma convidada inesperada: a Diana Bértolo. Aproximei-me:
- Olá dianinhas.
- Vai à merda!

R.C