quinta-feira, 13 de setembro de 2012

"Era tão vaidosa, ela, tão vaidosa..."

Podia-se mais facilmente chegar à conclusão de que afinal a terra é mesmo quadrada, deixando as pessoas de se aventurar a mar aberto com receio de cair no inferno, do que ver a minha tia Mariazinha sair de casa sem se pôr bonita. Antes e depois de nos despedirmos dela, reunimo-nos no quarto onde deu a primeira queda, há coisa de um mês, em casa, entrando no Hospital da Universidade de Coimbra pelo próprio pé sem imaginar que já não sairia dali a respirar. O quarto era imaculado - uma espécie de capelinha branco sagrado pontuada por terços, cruzes e santinhas. Nem uma grama de pó. Encaixados num dos flancos da cabeceira, dezenas de colares com jóias tradicionais tintilavam à lei do toque. "Era tão vaidosa, ela, tão vaidosa...", lembrou a minha Tia Sofia, descrevendo a irmã mais nova, de 81 anos, com um brilhozinho nos olhos. Aos pés da cama, sobre a cómoda principal, num retrato intimista, o triunfo do amor: a Mariazinha encostava o rosto de olhos fechados ao da neta Mónica, a minha prima, no casamento desta - a Mónica que por estes dias tenta derrotar a pior das doenças na força dos trintas e da fé.

Combinei com os meus pais às 11:00, hora em que a minha mãe me surpreendeu ao telefone com voz de poucos amigos - já tinham chegado a Lisboa, vindos de Portimão, e estavam parados ali perto, mas à porta de uma oficina e não da minha casa. Encontrei-os quando a minha mãe já tinha a voz sintonizada no alarme. "Podíamos ter tido um acidente!", foi repetindo, quase em pânico, enquanto o meu pai me tentava explicar, sereno, que se tinha soltado uma peça da parte de baixo do carro já na Ponte Vasco da Gama.

O problema resolveu-se e pouco depois do meio dia já batíamos roda na A1. A boa vontade dos mecânicos, influenciada pelo relato do que nos esperava em Anadia, assim o possibilitou. O plano era, de caminho, ir buscar a Rita, minha prima e neta da Mariazinha, que vive em Vila Franca de Xira. Se tudo corresse pelo melhor estaríamos em Anadia pelas 14:30, bem a tempo de parar para almoçar, chegar, apanhar as flores encomendadas, consolar a família, assistir à missa, aguentar o enterro e amaldiçoar o universo. Por nós esperava a Rita num restaurante com um toldo laranja, ali à saída da auto-estrada. Agora sim, tudo iria correr melhor. Ou não. A poucos quilómetros de chegarmos a Vila Franca de Xira o trânsito parou na A1. Um acidente. Para desespero da minha mãe, que se descontrola com alguma facilidade - a dada altura acusou o meu pai de, no pára-arranca, investir em marcha-atrás -, tivemos de nos aguentar ali no trânsito lento uns 45 minutos. Deu para tudo, até para eu tirar o meu pai do volante, ele que já trazia 300 quilómetros em cima e está cada vez menos habituado a conduzir neste tipo de distâncias. Depois de alguns minutos perdidos a tentar perceber onde estava a Rita, demos com ela e seguimos viagem. Parámos a meio caminho para morder alguma coisa - uma sandes de leitão em Pombal custou-me seis euros - e chegámos a Anadia por volta das 15:30.

Há vários anos que não via aquela parte da minha família, composta por tios e primos que vivem acima do Mondego. Alguns não via há uns três anos; outros há uns seis, desde o casamento da minha prima Mónica, que apareceu de lencinho azul a cobrir-lhe a cabeça, adereço próprio de quem anda a receber um certo tipo de tratamentos. Super-Mulher, nem quando quis orar pela avó na missa de corpo presente ela perdeu o controlo, ainda que estivesse perto disso. Vencerá. 

Fiquei particularmente chocado com a minha tia Cândida, um coração destruído pela morte dos dois filhos em três meses, há sete anos. Vai a caminho dos 90 e já não quer saber. Está "a pele e o osso", como a própria se descreveu quando a abracei. Espera, indefesa, pela senhora de negro. Confesso que só a reconheci quando se me apresentou, como que adivinhando a minha dificuldade em conservar memórias. Na missa de corpo presente, ao lado do Carlitos, o outro filho da Mariazinha, uma senhora que compreendi ser a versão feminina do Chief do "Voando Sobre um Ninho de Cucos" olhou para mim com curiosidade. Desviei a cara como podia ter forçado um espirro ou outra coisa qualquer - não sabia quem ela era. Ou assim julgava. Tratava-se, afinal, da companheira de longa data do Carlitos, a qual, segundo me disse, foi por mim elogiada até ao firmamento quando eu era puto, já que, nas visitas ao Algarve, lá em casa, preparava batatas fritas bem fininhas, como gostava e gosto, ao contrário do que então a minha mãe fazia.

A minha tia estava como devia. Pintada, impecável. "A dormir", observou a minha mãe. Era óbvia de entender e partilhar a comoção generalizada pela perda, tanto pelos contornos que a precipitaram como pelo carácter castiço da Mariazinha. Em Angola fazia sucesso por comer malaguetas inteiras ao lanche. Era também baixinha e muito bonita. Numa sala de estar da casa onde morava com filha, genro e neta mais nova, a Bárbara, em Anadia, havia fotos do casamento dela. Aparece a sair de um carro, de branco, radiante, numa delas, "tal e qual a Elizabeth Taylor" segundo a minha mãe.

Se o 'como' e o 'quando' da morte se discutem, discuti-los-ei, porque a revolta é grande. Ao dar entrada no hospital de Coimbra, a  minha tia fez exames e recebeu ordens para lá ficar. Tinha um coágulo na cabeça e seria operada alguns dias depois. Entretanto foi ficando por uma cadeira de rodas, sozinha. Uma chatice. Quiseram fazer-lhe um curativo na cabeça e ela desviou-se: "Não me estraguem o cabelo!". Claro que a Mariazinha se tinha arranjado antes de ir para o hospital, esse discernimento não lhe faltava, mas já não tinha muita força nas pernas e voltou a cair, agora no hospital e de novo com a cabeça no chão. Foi operada de urgência e, acto contínuo, vítima de negligência: não lhe tiraram o ar da cabeça, procedimento imperativo neste tipo de cirurgias. Uma enfermeira enviou a minha tia para os cuidados intermédios em vez de a levar para os intensivos. A Mariazinha apanhou uma pneumonia e não chegou a acordar. Vamos para cima deles com um processo, garantiu-me a Rita. "Se a minha avó já não volta, pelo menos alguém, no futuro, poderá colher benefícios disto".

Deixámos Anadia hora e meia depois do funeral, arrasados e com o estômago a queixar-se. Liguei ao senhor Carlos, dono da cervejaria que interessa ao pé da minha rua, e reservei jantar para a família Coelho. Leitão para o filho, arroz de polvo para a mãe e polvo cozido para o pai. Não passou foi pela cabeça de ninguém que essas três meias doses acabassem no lixo ao fim da noite, uma vez que não chegaram a ser vendidas. (Mas, que raio, também não era preciso deitar a comida fora).

Às 19:30 já estávamos na A1 - os meus pais, a Rita e eu. Achei apropriado sintonizar o rádio na M80.  Passámos por um carro onde seguiam familiares nossos logo nos primeiros quilómetros da viagem de regresso. Iam para Castelo Branco. A minha tia Cândida fez adeus e senti um arrepio na espinha. Passámos também por um Audi A3 que estava parado na berma da auto-estrada, provavelmente com uma avaria. "Olha um primo nosso ali parado...", comentei com o meu pai, que, por sua vez, retraiu  o desabafo de que os Audi A3 só dão problemas. Imaginei um balão de pensamento por cima do cabelo dele estilo MacGyver moreno, dividido ao meio e puxado para trás com os intervalos dos dedos. Ainda tentei aventurar-me pelo relato do jogo de Portugal, mas em menos de cinco segundos a minha mãe pôs-me na linha. M80.

A Rita ainda ia trabalhar nessa noite, pelo que pisei mais a tábua do que o costume, e de Lisboa nos aproximávamos quando o motor foi abaixo. Assisti, incrédulo, ao ponteiro da velocidade descer, teimoso, até ao zero. Conduzi o carro durante os metros que pude e deixei-o no fim de uma subida íngreme. Era já noite cerrada pelas 21:00.


Desde que deixei o cabrão do Audi A3 do meu irmão a uma unha de distância do rail de protecção, até aparecer o reboque, passou mais de uma hora, tempo suficiente para passarmos de um sereno conformismo - jantar na cervejaria cancelado - ao desespero. A minha mãe sentiu-se mal. Precisa de comer com frequência, pois, de contrário, a tensão baixa, e ali não tinha grandes hipóteses de se safar. Na geleira que trouxera de Portimão já só restava água. O meu pai, afectado pela perda da irmã, só fazia disparates. Andava com frequência em redor do carro, sem norte, o que assustava a minha mãe a um ponto desnecessário, dadas as circunstâncias. Eu e a Rita tentávamos relativizar as coisas - "nem está assim muito frio" - mas a energia era tensa. A certa altura, quando já nos tínhamos lembrado de ir para o lado de fora do rail, que dava para uma ribanceira, reparei que o meu pai estava ao telemóvel e dirigia-se, no breu, na direcção do triângulo. Uai. Mesmo que o reboque já estivesse no horizonte, o que não acontecia, ele não podia tirar o triângulo lá de trás antes de seguirmos viagem. Além disso, andar pela berma da auto-estrada, ainda para mais no escuro, era, digamos, estúpido. Não sabia que raio lhe estaria a passar pela cabeça e fui atrás, e qual não é a minha surpresa quando o vejo passar para lá do triângulo, ainda ao telemóvel! Chamei-o sem obter resposta e desatei a correr pelo lado de fora, onde também não via porra nenhuma. Vi-o cair ao longe. Acelerei o passo e ao chegar perto dele tropecei também em algo, mas estiquei um pé e mantive o equilíbrio para não cair ribanceira abaixo. Gritei-lhe: "Mas que merda é esta, estás louco!?"

Não me respondeu logo, atordoado que estava, mas depois explicou-me que tinha sido a responsável da assistência em viagem que lhe tinha dito ao telemóvel para procurar o quilómetro da auto-estrada em que estávamos parados. A puta senil. Caíra ele devido ao declive da berma da auto-estrada - distraído ao telemóvel, no escuro, não o topou; estivera eu perto de cair devido ao canal de pedra que leva as águas da auto-estrada para a ribanceira. Já de pé, o meu pai sacudiu pedrinhas e pó das calças, onde ganhava forma uma pequena poça de sangue. Fez um esgar de dor. Pedi-lhe para levantar o tecido: já lá ardia uma ferida grande no joelho. O cotovelo também estava aberto. Tudo isto eram coisas a mais para a minha mãe, que, zonza, teve força suficiente para encher os ouvidos do meu pai à grande e à angolana assim que soube da história - no escuro, ao longe, pouco vira. Nunca mais o meu pai vai repetir uma brincadeira daquelas, tanto que de nós ouviu. É uma garantia. Depressa apareceu o taxi e seguimos viagem. Tínhamos o carro de substituição à nossa espera na Hertz, rent-a-car com escritório no aeroporto. Lá chegados, enquanto o meu pai foi buscar a chave do carro de substituição, fiquei com a minha mãe do lado de fora das chegadas. Antes, deixámos a Rita em Vila Franca de Xira com pedidos múltiplos de desculpa por todas as coisinhas.

Quem por nós passasse no aeroporto passava por uma mulher pálida sentada numa geleira com um guarda-chuva na mão, mulher essa que encostava a cabeça ao corpo de um rapaz, o filho, eu, que trazia um colete reflector numa mão e um sombreiro de Audi na outra - tivemos de esvaziar o cabrão do chasso, que seguiu directo para o depósito do reboque.

O meu pai apareceu de chave na mão e sangue seco a decorar as calças. Acompanhado do colete reflector e do sombreiro do carro, perguntei a três polícias por uma farmácia no aeroporto. Olharam-me de cima a baixo e responderam: "já fechou". Decidimos democraticamente que as feridas só seriam desinfectadas em Portimão, uma vez que a prioridade era comer - dois votos contra um, o meu. Descemos ao parque de estacionamento, onde seguimos no nosso novíssimo e instável Ford Focus para a Portugália, não sem antes perdermos quase meia hora para o pôr a andar - só pegava pisando a embraiagem, pormenor que, claro, a Hertz nos omitiu. Perto da uma da manhã estávamos à mesa, agradecendo à providência a imensa glória de poder devorar alimentos. O empregado que nos serviu a grelhada mista era muito afável e ficou logo a saber do enterro e afins. Era de Trás-os-Montes e contou algumas histórias. Junto da conta trouxe uma tigela da Portugália, que ofereceu à minha mãe.

Não tinha dúvidas de que iria levar os meus pais a Portimão. O plano inicial era outro, uma vez que trabalhava dali a pouco mais de 24 horas, mas eles estavam demasiado exaustos para se preocuparem a dois com mais 300 quilómetros de madrugada. A minha opção agradou-lhes muito e revelou-se certeira: mal entrámos no Alentejo, um imenso manto de nevoeiro tudo cobriu em nosso redor. Fiz grande parte do trajecto entre os 70 e 80 quilómetros/hora, com máximos, luzes de nevoeiro e quatro piscas ligados. No banco de trás, embalada pela viagem fantasma, a minha mãe adormecia e acordava com facilidade, num cansaço confuso. Numa das vezes em que acordou, gritou, "buraco!", "buraco!", e voltou a fechar os olhos. Chegámos a casa com os ponteiros a bater nas cinco da manhã. Deitei-me de seguida. Ruidosas, as gaivotas, histéricas de fome, começaram pouco depois a dirigir-se em bando para o mar, à procura de comida. Fechei os olhos e segui-lhes o voo até à praia. Encontrei lá a minha tia: estava a compor o cabelo diante de um pequeno espelho de princesa enquanto mordia uma malagueta.

3 comentários:

Susana disse...

A tia não só se via ao espelho como sabia deixar-se ver... Belo retrato da família!

E depois de enterrar os mortos há que cuidar dos vivos... Há que acreditar que os super heróis derrotam sempre o que é mau e essa super mulher vencerá!

Poppy disse...

O teu texto comoveu-me, senti saudades da minha tia "Mariazinha" que além de Maria também era do Carmo, era a tia Tá como lhe chamávamos, era tia bisavó que nunca casou, a tia bisavó que era avó de todos mas com amor diferente de avó, foi modista em Lisboa na sua juventude e depois voltou para a aldeia para ser a modista da qual toda a freguesia das redondezas recorria, no seu trabalho primava pelo perfeccionismo.

Pouco metia as mãos no campo mas quando metia era vê-la em pleno Verão com calor estafante com um grande chapéu na cabeça e camisa fechada até aos punhos e saia pelo joelho e meias até aos pés, sapatos fechados e luvas para que o sol não lhe estragasse a pele.

O amor dela era diferente do amor de avó porque se eu estivesse mais gorda a minha avó dizia-me que estava jeitosinha e ela alertava-me para o facto de estar a ficar gorda (não fizesse ela dietas parvas mesmo depois dos 70 anos), dava palpites sobre a roupa que usasse e era pouco politicamente correcta, não gostava não gostava, pois queria que as sobrinhas e os sobrinhos andassem impecaveis, a fase em que me vestia de um modo completamente desleixado, para ela foi um desgosto, recuperar um estilo de vestir mais feminino para ela foi uma alegria.

Das vezes que esteve internada não deixava que as visitas entrassem sem que lhe tivessem arranjado o cabelo...

Ela também se foi, tinha 94 anos não por negligência médica em algum hospital, mas porque chegou a hora dela depois de uns longos meses acamada...

Desculpa, caí aqui de paraquedas apanhei um texto envolvente e bem escrito, li-o até ao fim... E encontrei a minha tia Tá, e acho que nunca tinha escrito nada tão longo sobre ela.

Se houver céu que as nossas tias Mariazinhas estejam por lá sentadas ao espelho a arranjar o cabelo.

Rui Coelho disse...

Susana: touché*;

Poppy: é bonito partilhar a história destas Mulheres, que agora vivem na nossa imaginação e daqueles que nos rodeiam.