segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

O Duelo

Sugestão de acompanhamento musical:

Guilty - Yann Tiersen

É que hoje cheguei a casa e vi um pombo a fazer-se a uma fêmea no terraço do prédio diante do meu, insinuando-se com a cabeça junto à plumagem cinza-clara do seu peito e logo começaram aos trambolhões. Ora toda esta rua seria libertinagem animal não fosse o caso de outro pombo, chamemos-lhe "Corno", ter aparecido diante deles em voo picado e com uma linguagem corporal ameaçadora. Não havia duvidas, tínhamos Corno. Os "pombinhos" largaram o trambolhão e o macho (Jumentino) sugeriu à fêmea (Jumentina) que se afastasse, pois “aquilo seria assunto de Pombos".
Pombôs - aliás - visto serem franceses.
E foi com o bico coberto de baba – que poderia ser de raiva mas aliás era apenas pouco cuidado na relação entre saliva e francês - que o Jumentino se virou para o Corno e ambos sentiram o peso do momento. Prédio abaixo, apenas a dois andares daquele que tinha todo o aspecto de se vir a tornar o teatro de um duelo texano, um animado grupo de jovens praticava um ritual sonoro a que poderemos chamar de "sirene esquizofrénica de bombeiros". O grito colectivo era vomitado de uma janela bem espreguiçada, para onde era sugerível que contemplássemos o interior charmoso de um ar não respirável, Lisboa como Londres. Mas sem fog, nem Londres. Nem charme. Era mesmo só muita droga.
Seria então aquela melodia, tão doce, afinal um prenúncio cirúrgico de tragédia vindoura? Haveria duelo de pombos pistoleiros? Será que o Chavéz ouve Kings Of Convenience?
A resposta a estas dúvidas chegou num acordo tácito sobre os trâmites do duelo shakespeariano pelas penas da pomba amada, que aliás nunca foi tida nem achada no assunto. Ambos voltaram as costas ao respectivo opositor, recuaram 10 passos e a Jumentina chorava com a alma realizada por ter a sua plumagem disputada pelo Jumentino e pelo Corno. O que se seguiu foi intenso, profundo, dramático - foi épico. Ambos foram ao chão buscar uma pedra afiada e desenharam o jogo da macaca no terraço do prédio diante do meu, batalhando em seguida por um lugar no coração da Jumentina através da prática do jogo referido. Petrificada com a falta de músculo evidenciada pelo momento, afinal pouco romântico, deu meia volta e voou para Norte. "Onde ainda se fazem pombos como antigamente" - atirou - enquanto fugia "da macaca" num dia triste, em que o sol faltou ao trabalho. O facto não pareceu importar muito aos pombos beligerantes, que se mantiveram a brincar o resto da tarde e a dividir palmadinhas na cauda - “ah, malandro, falhaste um saltinho alí” - bastante denunciadoras de uma crescente e comovedora cumplicidade entre ambos. E já que falo nisto, parece-me que ainda ali estão mas esconderam-se atrás de qualquer coisa cujo movimento de silhueta lembra um pêndulo ininterrupto.

9 comentários:

JAC disse...

se o cão poeta não fosse poeta e gostasse de prosa, aposto que tinha adorado.

ps - eu já desconfiava que eras o maior, mas depois deste post não tenho dúvidas.

Anónimo disse...

Terraços loucos, decadentes e poéticos =)
Dali dizia que se devia criar sistematicamente a confusão, que liberta a criatividade, que o que é contraditório cria vida.
Gosto da maneira como desafias a razão =) …
O jogo da macaca faz sonhar.

O amor
é uma ave a tremer
nas mãos de uma criança
Serve-se de palavras
por ignorar
que as manhãs mais limpas
não têm voz

Eugénio de Andrade

Esquizofrenicamente, Pigeon take Jumentina back
http://www.youtube.com/watch?v=SuyNnm0lwBw&feature=related

à bientôt

Lampadinha disse...

Cá para mim esses pombôs eram gays, não se deixa uma pomba assim sozinha, abandona em Lisboa! Não terá ela ido para a baixa de Lisboa ter com a "malta"?

MrsCarmody disse...

Se o Chávez gostasse de Kings of Convenience, apoiar-se-ia nas palavras I'd rather dance than talk with you, em vez de vomitar 8 horas de demagogia escarlate em cima de uma pobre(paupérrima!) Venezuela

(Gostei muito deste texto)

**

Tomé, Ricardo disse...

muito bom! aprecio particularmente os pombos e tu exploraste-los de forma sublime.

djazzistik disse...

Pombôs, c'est ça le problème!

Gostei disto, ó mister "acordos tácitos sobre os trâmites do duelo"

Pão-de-ló disse...

Rui COelho, puro génio LOL és lindo !

"e a Jumentina chorava com a alma realizada por ter a sua plumagem disputada pelo Jumentino e pelo Corno" ... <3 <3 <3 <3 <3

Tisca disse...

Não há machado que corte a palavra bem dita =)
Aqui há talento =)
Ainda o abraço.

Nelson de Lagos disse...

A Jumentina ca para mim estava a trabalhar e apareceu o pombo xulo a pedir o milho dos serviços prestados!!! ai pois é bimp my pigeon!! tassssss grande rui xerife ;)