segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Este é um filme, digamos, totó


"The Hottest State", de Ethan Hawke

Encha o peito de ar; não respire.
Directos à história, que se despacha num descarregar de autoclismo: um jovem actor do Texas tenta a sua sorte em Nova Iorque, mas conhece uma rapariga morena por quem tomba de amores e perde o controlo de si. De tal modo a batida cardíaca do rapaz acelera que vemo-lo sair de um quarto, onde estava com ela - menina de sotaque aspirante a cantora -, para atacar 200 metros de nova-iorquinos obstáculos, como quem diz: “vejam como estou feliz, atentem como o meu ânus e eu nos sentimos perfeitamente relaxados ao correr por entre vocês, povo, nas ruas da cidade que nunca deixou de ter grandes olheiras". Uma viagem depois, porém, já ela, morna, lhe tentava fugir, e fugindo à fuga, deixou-o aos trambolhões, suplicando que tudo pudesse regressar à temperatura das primeiras camas. E para que não haja dúvidas de que o rapaz nutria os sentimentos mais nobres pela morena, ouvimo-lo ameaçar matar-se por desamores, num monólogo com o gravador de chamadas dela.

Pode respirar.
Agora que o pior já passou, vejamos o que há a dizer sobre “The Hottest State”, terceiro filme realizado pelo escritor, actor, argumentista e, digamos, realizador, Ethan Hawke. Cortando aos pedaços: como actor, Hawke não terá insónias quando se lembrar do seu papel em “Training Day”, ou da sua imberbe participação em “Dead Poets Society”; o mesmo, porém, não se pode aplicar a um certo príncipe “Hamlet”, perfeitamente integrado nas novidades da cidade moderna, não deixando de se fazer entender num inglês do século XVII.

Como argumentista, o texano de Austin quase assassinou “Before Sunrise (1994)” – contracena com a adorável Julie Delpy -, no instante em que achou por bem dar sequência àquele argumento, escrito a meias por Richard Linklater e Kim Krizan, com o bastardo “Before Sunset (2005)”. “The Hottest State” é o segundo filme escrito pelo desmultiplicado Ethan, e também um segundo despiste do qual só saiu ileso por dois motivos; a aura com que o primeiro "Before..." a todos abraçou, e o seu tão cláustrofóbico quanto maravilhoso plano-sequência final, com direito a Nina, dança e valsa.

Chegados à realização, importa sair à velocidade que entrámos. Ethan Hawke, que se baseia no romance homónimo de que é autor, repete neste filme a fórmula do díptico supracitado: diálogos longos, quase verosímeis, para intelectos folgados, que resvalam perto da insinuação sexuada, sempre o improviso. Não é, contudo, a falta de talento dos actores que mais pesa sobre “The Hottest State”. São mesmo as falas a revelar-se sobretudo pobres, o que pode ser um problema num filme que nelas insiste, e não retrai. Não tinha de ser assim. O tema é gasto, de modo que isto das primeiras cólicas emocionais merecia outro tratamento.

As intenções seriam espirituosas, não duvidamos, mas que pretendeu Hawke ao alternar planos de sugestão sexual progressista razoavelmente prolongados, com outros num estilo mais lácteo, não desdenhando que os protagonistas de uns e outros fossem os mesmos? A dada altura, Sarah (Catalina Sandino Moreno - "Maria cheia de Graça", Paris Je T'Aime) pede um favor ao rapaz que posteriormente rejeitaria: “Quero que me fodas”.

É, todavia, bem provável que, antes ou depois, já o casal arfe na cama como se estivesse à beira da primária explosão, quando todo o movimento corporal se processa a uma velocidade incomparavelmente maior dentro da cabeça do espectador. As imagens, manipuladas, levam-nos à procura de algo que não mexe e julgamos ver mexer. Não, não é para maiores de 18.

Concebido no banco de trás de um carro, William gasta os créditos de não ter crescido com o sustento emocional dos pais ao primeiro despiste amoroso, para logo a seguir definhar o amor evocando-o a uma média de sete vezes ao plano.

O amor é fodido, já sabíamos disso porque o Miguel Esteves Cardoso nos contou. Parecerá bem, deste modo, que a neurose do rapaz tenha mais motivos que não os de ter crescido numa família disfuncional. Dê-se-lhe outros méritos, ao invés de copiar uma fórmula gasta para unir histórias diferentes; é magia que não se repete. Celine e Jesse não moram mais aqui.

(Revelar nos créditos finais que a banda sonora deste filme inclui Leslie Feist, Norah Jones e Cat Power pode ser bastante perturbador, ainda que, no fundo, e como tudo o que mexe, perfeitamente compreensível; algo que terá escapado a Ethan Hawke.)

1 comentário:

Pedro Pascoal disse...

"O tema é gasto, de modo que isto das primeiras cólicas emocionais merecia outro tratamento".

Não vi o filme e não fiquei com vontade de o ver. Mas vou vê-lo! Tenho a certeza que vou gostar um bocadinho, uma vez que depois da leitura atenta deste texto as expectativas em relação ao "the hottest State" reduziram-se não a simples cinzas, mas a uma grande cólica. E de vez em quando.. lá vamos tendo algumas!