terça-feira, 4 de novembro de 2008

Este blues é outra coisa


I
Chove em Lisboa. Quinta-feira. Cheira a Inverno. Ficar em casa? Eh!

Saímos do trabalho, pouco passa das 19h, já com perdição destinada: a melhor alheira de Lisboa. (Este texto poderia ter arrancado de outra forma).

Outras vezes percorrido em busca do copo perdido (pedido?), o trajecto que geralmente conduz à pacífica Bica levar-nos-ia desta vez para um belo repasto, logo alí no primeiro degrau do Bairro. A sangria, desde logo e segundo a versão oficial, era “fresquinha”. Quando o presidente do Portimonense embarca para o Brasil num avião vazio, em Junho, e volta com ele cheio, duas semanas depois, as pérolas que por cá aterram também dizem que têm “remate fácil” quando a malta lhes pede uma amostra falada do que valem. Esta sangria, valha a verdade, tinha o seu valor. E era fresquinha. Houve também pataniscas de bacalhau a compor a mesa, sobremesas denominadas “pijama” e a alheira, claro, da qualidade que se esperava.

Guardo com afecto o elegante Bolhão que fizemos daquela mesa durante a hora e meia que por lá estacionámos. Entre outras conversas filosóficas, registe-se a persistente e talvez visionária evocação a um certo tipo de Tarzan que, na sua própria cabeça, já terá feito - arriscamos - um bonito filme onde perde os três. Fechando a objectiva em mim, note-se que, naturalmente, não trazia dinheiro para pagar a despesa, além de que ao chip do meu cartão multibanco parece causar sempre um certo embaraço aquele processo de “ok, *, *, *, *, ok”.

Levantar dinheiro foi, assim, o grande propósito que tive para a noite que teria continuação no Santiago Alquimista, onde o Paulo Furtado voltava a ser aka Legendary Tigerman. Acabei por conseguir meter dinheiro ao bolso numa busca que demorou mais de meia hora, desde o Alquimista até ao Terreiro do Paço, ida e volta. Uma pista: nessa aventura que pedia destreza na relação entre tempo e espaço, tinha por companhia uma espécie de Rui.

II
Queres ser Homem-tigre? Eis o que te valerá primeiro: ser one-man show, o que compreende dominar ofícios como o de VJ, tocar guitarra blues, kazoo, harmónica e bateria. Todos, ao mesmo tempo. Mas porque nem o Lendário em causa possui o dom da desmultiplicação de membros, ajuda que, num registo ponha-aqui-o-seu-pézinho, graves algo que transporte o teu público directamente para um saloon do profundo Mississipi. É essa a ideia, pelo menos. Algo que nos aproxime de uma entrada triunfal entre duas portinholas de madeira, enquanto seis ou sete homens-vaca dividem-se entre os que bebem ao snooker e os que o fazem junto ao balcão.

Por fim, e sem desdenhar: ter uma arena inteira a olhar para nós, e aguentar, ou não, com as frequentes piadinhas em voz alta que, “pec, pec, pec”, por todo o lado se ouve, quando a maioria dos presentes leva no bracinho a pulseira de convidado; pinta 80’s, bola de espelhos a rodar sobre as veias. A lata é que nós, os da alheira, também a tínhamos. Mas adiante, que não era contra nós que eu ia disparar.

Sobre esta última vertente do espectáculo, o músico conimbricense teve algo a dizer (depois de se travar a meio de um tema e olhar sobre o ombro esquerdo, como se estivesse a elevar a mira para o piso superior, o que não chegou a acontecer): “Esse senhor aí em cima, do lado esquerdo. Importa-se de se calar um bocadinho? Obrigado.” Surpreendidos? Zero.

Em entrevista concedida à Blitz, em Julho de 2006, o Paulo Furtado já tinha explicado como é que lhe agradava que as coisas se processassem num palco destinado a ser seu. “Quando o público não se entrega, prefiro que haja algum confronto e animosidade saudáveis do que nada.” Ei-lo, o confronto, novíssimo, com o engraçadinho do primeiro andar. Finalizava aí um concerto no exacto instante em que arrancava outro.

O que até então fora blues sujo, guitarra distorcida a desenhar intermináveis paisagens áridas para oeste, passou a cavalgadas vertiginosas de uma sonoridade fora de moda, que só alguém como o Paulinho pode colocar no mapa musical deste milénio computadorizado. Puro sexo entre blues e rock'n roll. Por cá, e, sobretudo, por . Nota: já durante o segundo concerto, diz-nos que passou o dia no hospital a fazer exames, e estava ali, diante de nós, pela boa vontade de uns sempre amáveis analgésicos. A esmagadora ovação com que foi brindado após o segundo e último encore explicou porque motivo o Lendário, que interpretou temas como "Honey, you're too much", ou a perfeita cover da mais-que-perfeita "Get your kicks on route 66", tomou a decisão acertada quando resolveu passar a noite de quinta-feira em Lisboa.

III

O síndrome “Magda no Lux” durou uma semana. “Ói: ela é a princesa do minimal, polaca, 29 aninhos; vamos? Sim? ‘Bora”! As apostas para o início do concerto intervalavam-se entre as 23h e as 02h. Entrámos pelo Lux (já sei que é uma discoteca, e o artigo coiso, mas soa melhor) dentro antes da 01h, e às 02h já era tudo nevoeiro pra nós. Improvável? Experimentem tomar conhecimento de que, na primeira meia-hora em que lá chegam, podem pedir quantos Grant’s entenderem: é oferta da casa. Bebam, sem pagar.

- Grande? Oferecem um grande? Mas é quê, um balde?” – perguntei.
- Sim, Grant’s, é uma promoção – devolveu-me o barmoço.

Quantidades à parte, soube bem uma abébia no antro mais improvável de encontrar alguém que nos ofereça alguma coisa nesta cidade. Connosco estava uma amiga que convidei para se juntar ao grupo. Não tinha jantado até àquela hora, mas já ia no segundo do que se promovia quando lhe chegou a tosta de queijo e tomate que entretanto pedira.

Acto contínuo: deixou logo evidente que não comeria uma das metades, tal a generosidade das mesmas. E quando fui conhecer (a-ham, sim) o terraço do Lux, onde voltava a chover copiosamente após um breve período de tolerância a conta-gotas, ela começou a perguntar a quem mexia se não gostaria de arriscar umas trincas naquele pedaço de pão que trazia pendurado nas mãos. Aceitou o repto um xavalo de olhos esbugalhados, à terceira tentativa, o que resvalou a minha amiga para um misto de orgulho de si e revolta dos outros, no que podia ser mais fácil de explicar mas se pode resumir no bom coração que ela tem.

A promoção deu asas ao tempo, e só demos pelo relógio quando, já no piso inferior, víamos o aproximar das 03h sem sinal da Magda. Teria perdido o avião? Ou seria esta uma boa altura para eu me lembrar que à entrada, no caixa, a mocinha que me atendeu já tinha dito, e foi troçada por isso, que ela poderia não entrar antes das 03h30? Passavam alguns minutos dessa previsão quando a bela Magda tomou conta do set, e 45 minutos depois já procurávamos o carro para voltar a casa. Quando ela ainda aquecia.

Deu para perceber a mestria nas passagens. O jogo de rins talvez maior do que o do príncipe do minimal, James Holden, que é o próximo convidado do espaço que naquela noite oferecia whisky até à 01h30. E que a minha amiga gosta muito da ala direita do piso inferior do Lux, onde fica, segundo a própria, o melhor spot debaixo do ar condicionado da pista. Ponto bom da saída precoce: a nossa sexta-feira poderia ter sido bem mais parecida com um pesado domingo do que realmente foi.

Créditos: a Titemarilyn é a maior.

2 comentários:

djazzistik disse...

Se amanhã tiver forças.. for James we go ;)

Peter disse...

Talvez tenhamos de voltar ao referido espaço a fim de atestar se a generosa oferta de Grant´s se mantém...