sexta-feira, 21 de novembro de 2008

"Onde fica a Igreja Evangélica Africana?"


Como muitas pessoas já tiveram de saber, porque eu faço a absoluta questão de o partilhar, a primeira coisa que fiz quando estagiei no Público foi sair do Público e almoçar com os estagiários. Fiquei a saber que B. – um colega de faculdade que saía duas a três vezes por aula rumo à casa de banho – acabava de ser expulso devido a uma busca online intensiva por excentricidades. O feito correu meia Lisboa. B. passou a ser figura pública: ainda que as pessoas não saibam quem B. é, por certo que já terão ouvido uma história.

Terminado o estágio, fiquei em contacto com duas ou três pessoas das oito ou nove que estavam naquela mesa. Ontem, mais de dez meses após esse almoço, houve jantar para reunir essa fauna a convite de uma estagiária, minha conterrânea, que já tinha saído do Público quando entrei.

O convite chegou por e-mail: prometiam-se pizzas por encomenda. Desnorteado pela oferta, saí do trabalho e corri para a Quinta das Conchas com a Raquel, uma das duas ou três pessoas que ficaram do P grande. À porta do prédio onde morava a Joana – anfitriã do jantar - estava o Augusto a.k.a imperador Augusto. Tinha ficado a contrato, talvez no grafismo, é possível. Não me soube o que responder quando lhe perguntei se havia bebida em casa. O Augusto bebe coca-cola. Eu é mais tinto. Minutos depois já nós tinhamos a confirmação de que havia um branco algures no frigorífico – um branco para seis pessoas. Voltámos à rua.

Faltavam poucos minutos para o que já eram umas tardias 21h. Pensámos em super, médios e mini-mercados, se possível a um mini-preço. Nisto, já descíamos a rua quando avistámos um senhor a caminhar em sentido contrário. “Pergunto já a este” – disse à minha amiga, na esperança de que nos pudesse ajudar. O senhor em causa parecia um moçambicano forçado, de solário. A barba era espessa, e muito branca, e brilhava no imenso escuro. Pensei que poderia ser a encarnação fiel do anão Atchim.

- Boa noite, olhe, sabe de algum local aberto por estas horas onde se possa comprar comida e isso? Não conhecemos esta zona, andamos à toa. E já passa das 21h.

A isto responde o dito senhor que sim, conhece – haveria um pingo doce ao fundo daquela rua, na direcção para onde nos dirigíamos. O timbre era sereno quando nos lembrou que já passava das 21h. Perguntámos por mais opções. Falou em Telheiras. Desanimámos.

Mecanicamente, voltámo-nos para a perspectiva dolorosa da rampa, e acompanhámo-lo durante alguns metros. O suficiente para que o digno nos tivesse dito que procurar comida estaria bem, mas que ele próprio, também na demanda de alguma coisa, fazia melhor: procurava alimento espiritual. Daí que, entre vírgulas, não tenha hesitado em confessar-nos que já fora comunista, mas agora estava curado devido a Jesus.

- Sabem, vocês são jovens, mas só Jesus interessa. Eu sei porque já o vi. Jesus apareceu-me e curou-me da esquizofrenia, epilepsia e asma. Ele anda por aí, tem o cabelo curto.

A minha amiga tinha ouvido tudo até à fase das curas. O resto nem tanto, porque entrou em transe.

- Não sou pastor, estejam descansados. Sabem, eu era comunista mat-materialista, mas agora sou homem-espiritual. Sabem onde fica a igreja evangélica africana? Não? Hoje há culto às 21h, já vou atrasado.

Olhávamos um para o outro com a barriga a doer. Acho que disfarçámos pouco. O senhor, porém, permanecia sereno, sem ser pastor, e então apercebemo-nos que tínhamos virado na praça errada rumo ao que deveria ser o carro da minha amiga, mas passava por ser um beco sem saída. Entendemos igualmente que atrás de nós ainda seguia o senhor que ficara curado do comunismo mat-materialista, por esta altura já desconfiado que não teríamos carro nenhum. Olhou para o relógio e abordou-nos uma última vez ante a aproximação de um par de crentes.

- Digam lá: vocês precisam de dinheiro para comer? Vejam lá, sou homem-espiritual. Há aqueles que estão lá em cima e depois vão parar lá abaixo.

Já com outra cor, a minha amiga abria muito os olhos e contorcia-se a rir com grandes convulsões. Eu já estaria a rebolar no chão se pudesse ter sido honesto. Ocorreu-me depois do jantar - giro, com direito a tinto do continente de Telheiras -, antes de adormecer, que aquele senhor calminho parecido com o anão Atchim nos tinha oferecido dinheiro para comer enquanto procurava a igreja africana evangélica da Quinta das Conchas, onde havia culto às 21h para um ex comunista mat-materialista convertido em homem-espiritual. Tudo teria, forçosamente, de estar pelo melhor.

3 comentários:

Raquel disse...

Eu acrescentaria apenas que talvez a pergunta dele tenha feito mais sentido do que podemos imaginar.

Juntando ao desespero da ausência de supermercado aberto, a insistência em que fosse um 'mini-preço', a volta ridícula à praça errada e o carro que parecia nunca ter existido... eu diria que ele não precisava de grandes iluminações para achar que afinal o que queriamos mesmo era um euro para podermos comer.

i disse...

Confessa lá que só escreveste isto para eu ficar cheia de remorsos por não ter comparecido em tal ilustre reunião. Foste bem sucedido.
Quanto ao B., que ainda anseio por conhecer pessoalmente, atingiu níveis de popularidade comparáveis ao Obama.

(Aguardo as prometidas 'histórias' do A.)

Joana disse...

Bem... confesso que ainda procuro esse senhor pelas redondezas do bairro. Quem se diz salvo de tanta (tripla) ameaça e um herói.
Mas vá, saber que tenho um culto aqui ao pé de casa e vir a descobrir a importância do mesmo na vida de tanta gente (uma só já me impressiona), é algo que me assusta... Ai, as peregrinações.
Por fim, parece-me que B. continua na senda do sucesso... agora que é B. - o E. cuidado com ele.
;)

Jantarada para repetir... isto da fauna estagiária está em extinção.