segunda-feira, 18 de outubro de 2010

A minha canção favorita dos Radiohead é...


A New Musical Express foi para a rua e convidou vários músicos de bandas britânicas a cuspir a respectiva música favorita dos Radiohead. Por maioria de consenso ganhou a ‘Everything in it’s Right Place’. Fã herege que sou, discordo; reconheço que gosto mais hoje do Kid A do que ontem, e provavelmente mais amanhã do que hoje, mas estou longe de achar que foi a melhor coisa que eles deitaram ao mundo, tal como esse tema desse álbum. Em baixo estampo a reduzida lista das minhas favoritas - uma decente deveria levar 30 ou 40, e não 10, mas amanhã é dia de trabalho -, depois de um fim de semana inteiro a ouvir a discografia (vá, uns 80%) do quinteto, e o mesmo é dizer que neste momento precisava assim de uns 15 dias regados a rum numa praia caribenha para recuperar de tanta tristeza cantada.

10. Stop Whispering, Pablo Honey (1993)



O jovem Thom quer fazer-se ouvir, quer que o deixem ser, está a começar a sentir-se incomodado com a chatice na qual uma vida de adulto se pode tornar. Aparentemente simples, esta canção do álbum de estreia tem muito menos eco do que merece: não só pela irónica descrição da fragilidade emocional que empurra jovens como ele, o que nos dá uma pista segura de que como virá a tornar-se num compositor do caneco,

Dear Sir, I have a complaint


Can't remember what it is


It doesn't matter anyway
It doesn't matter anyway

como pela deriva instrumental que encerra o tema, mais experimental, mais noise, mais próxima do que viria a ser a interminável descoberta dos Radiohead pela novidade em tudo o que lhes soe a música, aquilo que nestas quase duas décadas os demarcou do grande rebanho do rock, pop, electrónica e ferrinhos - instrumento que termina o disco de onde vem a música aí em baixo.

9. Let Down, Ok Computer (1997)



Linda, dé! Adoro a sensação de fim ali a meio e ah! afinal ainda há mais.

8. Lucky, Ok Computer (1997)



Há sempre uma mensagem a retirar das letras dos Radiohead. Mais ou menos acessível, mais ou menos codificada, ela está lá, mas raramente nos puxa pela manga da camisa, suplicando a mesma atenção que a melodia. Não. Como outros temas, Lucky observa-nos de longe, quieta. Misturada na multidão, limita-se a abanar o rabo. Só depende de nós ir atrás para ver no que dá. Neste caso, ambicioso riff do Johnny Greenwood ali no refrão à parte, parece-me haver por aqui uma ode à possibilidade de o homem afinal triunfar sobre a máquina, de que nem tudo está perdido. Num dia bom, acreditará que a sua vontade vai prevalecer. Num dia bom há uma saída. Mas como em grande parte das canções dos Radiohead, no fim recebemos um aviso - 'despachem-se, é mais tarde do que pensamos', ou, neste caso, "we are standing on the edge.."

7. The Tourist, Ok Computer (1997)



A velocidade que nos impõem. Casa, metro, trabalho, noitada para esquecer, ressaca para lembrar, casa, metro, trabalho, reforma, cama, sepultura. Já foi, já passou. Parece que é só isto. Mas enquanto por cá andarmos haverá sempre a música que encerra o Ok Computer como resposta. Nesta versão quem vemos chorar é o intenso Thom, mas, se estivermos atentos à forma como atacou o solo final, o Johnny Greenwood não deve estar melhor por dentro - afinal de contas foi ele quem escreveu isto.

6. How to Disappear Completely, Kid A (2000)



O Thom Yorke a agonizar com um microfone pela frente, em negação, a tentar convencer-se de que consegue despistar os demónios que o perseguem, que consegue estar e está noutro lado, em paz, melhor, não ali, não assim: é a isto que soa o pânico em câmara lenta, assim grita um génio entristecido. Tenho para mim que é uma das canções mais representativas do que é ser Thom Yorke, e ele também - já pediu para um dia ser lembrado por esta música, se por uma tiver de o ser.

5. Black Star, The Bends (1995)



Gosto de melodias. O jazz, por exemplo: sou fã, sobretudo daquele vertiginoso que dispensa a voz, mas não vou à bola com tudo. Preciso de alguma harmonia; alguma melodia, mesmo que pouca. Na Black Star, mesmo que a história dos amantes que se separam devido à má fortuna, nunca devido a erros pessoais - isso nunca, isso não existe, isso não existe, isso não existe - já me tivesse apanhado, a melodia é tão conseguida, tão fácil de se gostar, que, enfim, é isso, gosta-se. Muito.

4. The Bends, The Bends (1995)



A canção inteira à espera de uma explosão que ameaça mas não aparece, e quando ela chega, aqui num ataque a três guitarras e um baixo, trata-se de um dos momentos mais gloriosos que conheci dos Radiohead quando o Thom enche o peito e anuncia ao mundo "I wanna live/ breathe/ I wanna be a part of the human race!". Se instrumentalmente é intocável, a canção alterna entre o seminal e o razoável ao nível da escrita, e assim explico o motivo pelo qual é possível encontrar músicas aqui por baixo desta - no sentido de que portanto estão acima, bem entendido.

3. Street Spirit (Fade Out), The Bends (1995)



À medida que esta lista avança, torna-se cada vez mais difícil explicar porque motivo trocaria este tema por aquele, ou não. Humm.. ou não. Street Spirit (Fade Out) embaraça-me, faz-me sentir vergonha por não passar de um mero humano, movido a necessidade básicas, ao contrário deste colectivo munido de poderes mágicos. Aqui se faz o elogio de uma voz fabulosa como aquela que o Thom Yorke tem, um falsete tão perfeito que ao próprio irrita. Só o Jeff Buckley lamenta igual. (Vai daí talvez melhor). Numa canção que se for sobre o que parece é sobre morte, em pleno Glastonbury, o Thom Yorke, infeliz oráculo de boas intenções, aconselha-nos "Immerse your soul in love!" e despede-se da forma mais acriançadamente feliz que algum dia pude testemunhar. Eu, que nunca o vi nem ouvi. This fake plastic fan.

2. National Anthem, Kid A (2000)



Radiohead, o mais diabólico dos baixos, a mais nervosa das baterias, free-jazz? Este é o meu hino nacional.

1. Fake Plastic Trees, The Bends (1995)

Tudo o que os Radiohead têm de bom, comprimido numa balada quiet-loud sobre este mundo de faz de conta em que se assume a impossibilidade de o compreender e, braços em baixo perante a pessoa por quem largaríamos tudo, se diz coisas como "If I could be who you wanted, all the time, all the time".

4 comentários:

Martini Bianco disse...

Muito bem. Qualquer dia escreves para o Blitz :)

Radiohead não deve ser ouvido com frequência pois é melancólico de mais, na mesma medida que é trancesndental.

Estamos de acordo quanto à melhor música deles, agora não entendo a ausência do "Creep" desse top 10, o mesmo para "no Surprises".

Mas espero que continues a criticar dessa maneira. Essa expressão "Casa, metro, trabalho, noitada para esquecer, ressaca para lembrar, casa, metro, trabalho, reforma, cama, sepultura. Já foi, já passou. Parece que é só isto." está soberba. Passa-me direitos de autor, pr que vou usa-la quando voltar a falar sobre issues sociais :)

Abraço

Ricardo Saleiro disse...

Tu só te metes em empreitadas impossíveis. Já sabes que se fosse agora a tua lista seria outra, certo? A minha podia ser esta ou outra qualquer com 10 músicas que não estão aqui. De resto, acho que tens muito early Radiohead, mas tá-se.

Rui Coelho disse...

claro, a lista poderia ou deveria ser maior, sem hierarquia, mas quis saber o que sentia naquele momento depois de um fim de semana a ouvir a discografia deles. era isto. sei que gostas do in rainbows e algumas são mt boas, mas acho que nenhuma atinge o nivel das que aparecem em discos anteriores.

F.A.R. disse...

Acho que há uma no In Rainbows que está ao nível do passado deles: Videotape. Se eu fizesse uma lista de músicas dos Radiohead (coisa que me recuso a fazer), sei que uma delas estaria presente de certeza: True Love Waits.