sexta-feira, 4 de maio de 2012

San Mamés é outra coisa


Redes de galinheiro e ao fundo, à direita, pilares assentes no meio da bancada, old school

Algures durante quatro anos na Católica a tirar comunicação fui à mesquita de Lisboa entrevistar o sheik David Munir, o imã local, a propósito de um qualquer trabalho. Comigo estavam dois colegas de turma: um de Setúbal, outro de Vila Viçosa. Provavelmente os meus dois grandes amigos do início ao fim da Universidade. O sheik Munir já estava à nossa espera e recebeu-nos com afecto. Conversámos durante horas, os quatro. Entusiasmados, curiosos, nós, miúdos, batemos o recorde mundial de perguntas no menor espaço de tempo, mas o que até hoje conservei foi uma só resposta do sheik. Com as têmporas bem abertas, disse: "o Islão é amor!". Tínhamos sido conduzidos para uma espécie de escritório, e não uma sala de orações, e por isso não tivemos de descalçar os sapatos. Estava ali a prova de que podíamos ter uma tarde agradável sem ser a beber cerveja numa esplanada. (Não comprem isto).

Coisa bem diferente foi aquela que se passou há uma semana no San Mamés, o estádio do Athletic. Antes de a velhinha Catedral de Bilbao ir abaixo, já em 2013 - o novo anfiteatro do clube está a ser construído num terreno ao lado do velhinho -, devo partilhar com o mundo que antes de entrar no estádio os stewards do jogo com o Sporting me obrigaram a... tirar os sapatos. No meu caso, as botas. Não queria acreditar. Praticamente sem voz quando ainda faltavam quase duas horas para o apito inicial, sentei-me num degrau com o whisky em copo de plástico preso pelos dentes e descalcei-me ao mesmo tempo que um adepto dos nossos me passou uma caixinha com pastilhas elásticas. "Nem esta merda pode entrar: tira uma e vai passando!", disse-me, ao que obedeci parcialmente, tirando duas.

"É isto?!"

Visto por fora, o San Mamés assemelha-se a uma fábrica abandonada. "É isto?!", perguntei com não pouco espanto ao meu camarada sportinguista de aventura, o Bruno, que por sua vez anunciava em directo e exclusivo, no Facebook, ter feito 856 quilómetros (1723, ao todo) para, afinal, estar a ver a estrutura exterior da estação de metro do Campo Grande. Sim, era aquilo o San Mamés. Com capacidade para 40 mil pessoas, o estádio é tão antigo que uma das centrais está suportada por pilares encaixados… no meio da bancada - leia-se: entre os adeptos. Qualquer coisa como a resposta ingénua dos bascos aos lugares atrás de placards, e portanto sem visibilidade, que, após a edificação do novo José Alvalade, achou-se por bem destinar aos adeptos cegos do Sporting. (Ficção enfrenta Realidade e perde).
Confirmava-se: o ambiente era bem diferente de tudo aquilo que alguma vez tinha visto em estádios de futebol. Não é que, por exemplo, as claques em Bilbao sejam especialmente espectaculares: a esse nível, como os próprios bascos reconheceram, fomos os mais criativos, entusiastas e respeitadores que por lá passaram em anos. A pólvora é mesmo a forma como o estádio inteiro puxa pela equipa a uma só voz, tal como eu próprio já testemunhara nas ruas, no meio deles, a puxar pelos nossos - correu melhor que bem quando tinha tudo para correr mal, um encontro muito à imagem daquele entre escoceses e irlandeses no Braveheart.

Antes da batalha tipo escoceses/irlandeses no Braveheart, travada com abraços

Poucos cânticos, os dos bascos, mas bons. Cada ataque um pretexto. Cada canto uma festa. Cachecóis ao ar: "Athletic! Athletic! Athletic!". Na bancada destinada aos nossos vi o Manzarra à minha esquerda e o Bruno de Carvalho à direita. Antes, na plaza Mouya, o nosso local de concentração, já tinha visto o Eduardo Barroso escondido num impermeável. Nós estávamos no meio do Directivo Ultra XXI. À nossa frente o "maestro" da orquestra era um dos rapazes que caiu ao fosso de Alvalade quando tentava agarrar a camisola oferecida pelo Capel, em Novembro, depois de um jogo com o Leiria. Ao nosso lado enrolavam-se mortalhas e ensaiava-se o cântico que mais pegou esta época, com versos de Baudelaire para cima. "Braços no ar/Todos de pé/Vamos cantar/Sporting Allez". O ambiente era imelhorável, exista ou não este palavrão. A bexiga a apertar. "Tivesses apostado no whisky mais cedo..."

errr...

Foi quando me despachei da casa de banho, reentrando no sector dos nossos adeptos, que fiquei perfeitamente tolo. Da parte de cima daquele cubículo não se via qualquer das balizas. Mesmo eu, mais ou menos numa fila central, não conseguiria, já na segunda parte, ver o remate do Insúa ao poste. Tínhamos pago 65 euros e não víamos as balizas! Mais: havia uma rede de galinheiro, bem grossa, a obstruir-nos a visão. Melhor: no fim do jogo, à saída do sector, topei que havia um mini banco de madeira envernizada que tinha sido colocado na última fila. Interroguei-me se os anões também pagariam 13 contos pelo bilhete. À saída, por outros motivos, o queixo permaneceu caído: em vez de irem festejar a passagem à final para as avenidas principais, centenas de adeptos do Athletic, a maioria deles muito jovens, tinham esperado por nós cerca de 45 minutos - aqueles em que ficámos presos no galinheiro basco por imperativos de segurança - e formaram um cordão humano para nos congratular, isto sob o olhar atento de centenas de polícias com capacetes vermelhos e gorros de assaltantes de bancos enfiados na cara. Quem não se metia com eles era eu. Na memória dos bilbaínos ficara a homenagem que fizemos em Alvalade ao Iñigo, adepto do Athletic morto por uma bala perdida da polícia durante os festejos da passagem às meias-finais da Liga Europa, à custa do Schalke. Homenagem essa, que, de resto, foi por nós repetida em Bilbao, fora e dentro do estádio.

onde está o wally?

A resposta foi uma comunhão leonina tremenda entre os Leões de Espanha e os de Portugal: todos nos aplaudiam e cumprimentavam ao ritmo de "Ésporting! Ésporting!"; pediam, "cambio!", "cambio!" - aludindo à troca de camisolas ou cachecóis; cabisbaixo, afastava-me do San Mamés ao som alheio de "arriba, animo!" e de um muy espanholês "bom juego, Ésporting!". Já num banco de jardim perto do Guggenheim, enquanto acabávamos as cervejas e a quiche com modos beirãos, cheia de tudo, da mãe do Bruno, duas garotas passaram por nós com cachecóis do Athletic ao pescoço e interromperam-nos o repasto com o mais bonito dos coros. "Aupa Sporting!". Na looonga viagem do regresso, sempre a cantar, sempre a cantar, um dilema não deixou de me ocupar as ideias ao volante: "merda para estes bascos, não os podemos odiar nem um bocadinho?". 

Em BIlbao é sempre Euro 2004

Já em solo português parámos numa área de serviço para um último assalto a sanduíches preparadas na véspera. Havia mortadela, chourição e queijo. Houve também um auto-denominado padre católico holandês que foi deixado por um condutor perto do nosso carro e que se aproximou de nós assim que meteu os pés no asfalto. Primeiro perguntou se falávamos inglês ou francês. "Sim". Depois, se íamos para Lisboa. "Vamos, pois". Posto isto, a conclusão: "then i'm going with you!"
Eu olhava o Bruno, o Bruno olhava para mim, ambos olhávamos para o padre católico holandês. O aspecto do prior era, na melhor das hipóteses, assustador. Tinha estampa de atleta de basquetebol, óculos de garrafão e capachinho. Este pormenor fez a diferença: não confio em padres que usem capachinho. Dono do carro, o Bruno tinha algo a dizer sobre a questão da boleia, e o que disse, por mim secundado, não foi do agrado do alegado mensageiro de Deus. "Ok, you're not very friendly!", acusou-nos, para nosso descanso, e apressou-se a procurar boleia com outras pessoas, de preferência que não estivessem trajadas à hora de almoço com as cores de um clube de futebol, a somar duas directas, uma dor localizada no lado esquerdo e vozes de Olavo Bilac de tanto puxar pelo Nosso Grande Amor.

3 comentários:

Martini Bianco disse...

Excelente relato. Apesar de essa aventura ser muito dispendiosa valeu a pena. Nunca lá fui mas ver o San Mamés velhinho (o único que recebeu todas as edições do campeonato espanhol) deve ser como ver Cuba ainda no regime de Fidel.

Essa do padre católico holandês é que foi estranho. Ou o tipo não era padre mas sim um impostor, ou nos dias que correm já se valoriza mais um sheik muslo qualquer que um padre.

Rui Coelho disse...

Tem pouco a ver uma entrevista marcada com o imã da mesquita de lisboa e um auto-propalado padre com aspecto assutador que se faz de auto-convidado para entrar no nosso carro em plena auto-estrada.

Bruno Martins disse...

Tão bom. Quase tudo tão bom, Rui.
Que nos calhem mais espanhóis que vais ver onde é que vamos outra vez.