segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Sábado à noite

O Transmission é um bar de metal pesado no Cais Sodré que está a atravessar uma aguda e rentável crise de identidade. Hoje em noite mantém as casas de banho mais badalhocas, o serviço de balcão mais antipático e o ambiente mais desprovido de oxigénio de toda a Europa Ocidental, mas é na música, o fio condutor, que tudo se passa. A mudança terá começado durante os meses em que vários bares-discoteca da zona estiveram fechados, arrastando para o Transmission um tipo de clientela pouco familiarizada com antros do género. Ao nariz dos donos deve ter chegado o odor do dinheiro. O intenso e doce odor do dinheiro. Acto contínuo: resolveram ampliar o tipo de oferta musical, dividindo o bolo metaleiro com outros géneros de rock e pop. Não há engano: o espaço pode ser medonho, é na verdade um buraco muito feio, mas se for para ouvir umas guitarradas late night, já meio vesgos, tudo se faz.

O Transmission atrai gente muito interessante. Há uns tempos vi por lá um casal de namorados equipado com óculos de mergulhador. Trocaram carinhos o tempo todo - os óculos dela sucessivamente a mergulhar nos dele. Voto naquele amor. No sábado resolvemos acabar por ali a nossa noite, e, ao contrário do que é comum, havia mais gente sentada em redor da pista de dança do que a fazer headbanging. Os headbangers da ordem pairavam por lá, sentados, mas não estavam para aturar Talking Heads. Uns obviamente entediados, outros mais entristecidos. Havia ainda quem fizesse de Vitinho. Na minha cabeça ouvi aquelas caixinhas de música de dar à corda, para crianças, mais ou menos isto aqui em baixo, mas sem o martelo pneumático que aparece depois do primeiro minuto. E os gritos guturais, lá para o meio.


Mas a hora dos Vitinhos chegou. À ressuscitação desnecessária dos Limp Bizkit, vejo a rapaziada deixar o leito de sono, formar a roda do pescoço na pista de dança e começar a rodá-lo como se não houvesse amanhã. Eram sem dúvida diferentes do habitual, estes metaleiros, um grupo de seis, contei. Um deles, o que tinha ar de ser mais novo, vestia uma t-shirt onde nas costas se lia, “Let’s Rock”, coisa que não lhe assistiu quando o DJ passou Doors ou Arcade Fire. Além do miúdo do rock, havia um com uma t-shirt azul bebé e outro frequentemente preocupado em tirar as beatas das solas dos nike impecavelmente brancos. Os  restantes limitavam-se a ficar por ali encostados, sem interesse no que se passava, ou a aprender sem encosto. Nenhum tinha o cabelo comprido.

Ao lado deste grupo arrastava-se uma mulher com lentes de contacto verde fluorescente e um desenho a meio do queixo que me evocou o David Villa, do Barcelona. Havia uma outra, já nos seus ‘quarentas e’, que se movimentava pelo espaço a grande velocidade, com o pânico de quem procura a saída de um labirinto. (Lembrei-me do Asterix). Passou o tempo a pedir cigarros e a interromper conversas. Fingiu não ter tido a intenção de me passar a mão pelo meio das pernas quando fui à casa de banho e me cruzei com ela, que de lá saía. Quando me virei para a confrontar já ela voava pelo outro lado, montada (snif) na sua vassourinha branca. Achei melhor não arranjar problemas.

Já para o início da manhã começou, enfim, a passar algum metal. Motörhead, por exemplo. Coisas que não conheço, mas com as quais passo bem. Até que o DJ resolveu ir à casa de banho e deixar a rolar um som que me pareceu dos Interpol, mas que desconhecia. Seria, certamente, a música da vida de uma moça que aterrou por ali com o coração à flor do cabedal. No fim da música, já com o DJ de regresso, perguntei-lhe o nome daquela maravilha. Gravei-o no telemóvel, sorri e fui para casa. Tinha a noite ganha.

1 comentário:

Martini Bianco disse...

Ehehe.. Transmission. Ultimo spot em muitas noites alcoólicas. É só figuras por ali :)