quinta-feira, 9 de junho de 2011

No happy end for you (título inspirado no episódio do Seinfeld, Soup Nazi)

Alguém que lhe dedicasse dois minutos de conversa percebia logo que a maior dor por ela sentida até àquele momento teria sido dormir de luz apagada. A altivez dos modos, o tom de voz Heloísa Apolónia, a não aceitação do erro... uma chata de primeira. Admirava-lhe o trote afirmativo na chegada e lento, de passerelle, ciente da atenção recebida, na partida. Mimada e atraente. Ninguém gostava dela. Poucos a suportavam. Todos a queriam levar para casa. Eu sentia isso tudo, frequentemente ao mesmo tempo, e tentei a minha sorte. Mais tarde percebi que ali começava a construir uma das minhas primeiras (e poucas) relações na plena posse das minhas faculdades - leia-se: sem copos, sem amigos – meus, pelo menos - em redor, sem nada a provar a não ser ela mesmo. (Um banquete). As coisas correram bem e conheci a mãe após a primeira noite. Apareceu-me em casa de manhã com pré-aviso de meia hora. Ainda eu ostentava a cara de parvo dos recém-acordados, lado a baixo com ela, quando surgiu na soleira da porta e, de dedo em riste, prometeu fazer cair o céu sobre a filha por esta ter passado a noite fora de casa sem lhe dizer porra nenhuma. Afaguei o cabelo à filha enquanto esta levava uma bronca épica. A mãe nunca chegou a entrar em território inimigo. No tapete da parte de fora se deixou ver e dali bazou, despedindo-se com um sorriso avinagrado, deixando-me sozinho - arrastou a filha com ela por uma orelha.

Para ter o bem bom fui forçado a testemunhar algumas coisas bem forinha, nomeadamente tempestades coléricas da miúda que decerto provocaram alterações na lógica muito própria das marés, e que eu, com a experiência daquela manhã, entendia na perfeição de onde vinham. Uma vez resolveu atacar o mundo porque um condutor a 100 metros de distância mudou de faixa sem fazer o respectivo sinal. Tive o azar de lhe tentar acalmar e levei com um camião de berros em cima. Aprendi a lição: nunca subestimar as potencialidades de uma vénus em fúria. Foi a primeira discussão.

Mas era pelo paraíso que dava o corpo ao manifesto e certo dia fizemos um passeio romântico por um jardim. Namorados perseguiam-se, crianças faziam macacadas e os passarinhos cantavam. Uma brisa estúpida ajudava à sinfonia. Que bela tarde. Deitámo-nos de lado na relva do jardim, frente a frente, e ela desapertou-me as calças. Fitando-lhe os olhos com as têmporas dilatadas compreendi as causas e antecipei as consequências. Dei o mesmo tratamento às calças dela e fomos generosos um com o outro. O dia continuava bonito e sugeri que trocassemos aquele lugar por outro mais recatado. Escolhemos um banco de jardim cercado de arbustos. Pareceu-me haver movimento atrás deles mas a generosidade dela crescia à medida que o meu raciocínio perdia faculdades. 1+2 e eu falharia a resposta. A dada altura perguntou-me até que ponto seria correcto investirmos numas castanhadas ali no meio dos arbustos. Considerei a hipótese com afecto e para lá seguimos. Mas as folhagens continuavam com uma agitação fora do comum para a brisa que se fazia sentir e aliás era para diante delas que nos precipitávamos, ambos de calças em baixo. Estranho. Na confusão ela estragou a fivela de cabedal onde enfiava o dedão-dedinho do pé numa das sandálias. Socorri-me de um preservativo. Compasso de espera. Sussurrei-lhe barbaridades ao ouvido. Ela tremeu e devolveu multiplicado. E, claro, foi precisamente quando iniciávamos a sessão de física experimental que as folhagens ganharam vida ao estilo David Attenborough. Cabrão. Durante aquele tempo todo um segurança esperara ali atrás até à hora h para dar sinal de si. Tinha visto tudo. Calças para cima e dali escapámos descabelados, ofegantes e atomatados. Eu sofria, fazendo-me entender de “foda-se” para cima. Ela perdia-se de riso e provocava-me. Aproximámo-nos de um segurança que não tinhamos visto antes, rumo a uma porta de saída lateral. Saberia do que se passava? De certeza. Baixei a cabeça passando por ele, a bem de não ser reconhecido num eventual regresso. Já ela, lá para trás, sem pressa, insinuou-se ao passar por ele de sandálias na mão, demorando tanto tempo quanto possível, bamboleante, descalça, espectacular.

8 comentários:

Di Almeida disse...

Os teus leitores ficaram como tu, na moita. Eu cá prefiro descalçar-me e deixar uns bitaites.
Vários pontos positivos ao texto, a começar pelo espírito aventureiro e espontâneo e a acabar na escolha musical. Quanto à atitude final dela eu aprecio. Quem dá prazer a um, dá a dois, nem que seja em pensamento. Manter o sexo masculino feliz é essencial para o mundo girar harmoniosamente!

Ps. Hoje lembrei-me de ti quando vi isto:
http://www.faissebuk.coisoetal.com/2011/06/osanospassam/

forever alone - part 2

Rui Coelho disse...

Descalço-me contigo. Digo-te que achando-a chata ontem , hoje acho que o chato era eu, de uma força da natureza como aquelas é que precisamos. Nada se aproxima da glória de uma vénus em permanente fúria. Damo-nos bem, ainda assim. É raro. É bom.

Sobre o feissebuque: cada dia dou um passo em frente na minha independência, e ler isto só ajuda. É um vício fodido. Aprende-se pouco. É preciso aprender.

i disse...

impoem-se perguntar quao autobiografica e esta historia :P

e nao me canso de dizer, escreves deliciosamente*

Di Almeida disse...

Eu fiz recentemente um trabalho sobre as redes sociais e no final embora tenha recebido uma excelente nota, fiquei extremamente triste com as conclusões que tiramos sobre o que as pessoas realmente esperam do facebook, por exemplo. É demasiado deprimente teres de escrever algo através de um teclado para obteres atenção, valorização, carinho, seja o que for.
Espero que tenhas sempre uma vénus em fúria na tua vida ;)

Rui Coelho disse...

i: impõe-se responder o óbvio, as much as it gets ;)

Di: tanto assim é que eu faço os possíveis para fazer do facebook um cantinho de cantiga e tolice - impossível levar aquilo a sério, a bem da nossa sanidade. E o conteúdo/embalagem dessa tua última deixa.. lindo, isso!

i disse...

a tua vida e mto mais emocionante que a minha lol

Martini Bianco disse...

Faço minhas as palavras de comentadores anteriores. Tens o teu estilo muito próprio de descrever ambientes e sensações.

Decerto que na altura na altura ficaste atrapalhado com esse "flagra" mas hoje te ris à brava sobre dessa situação.

Rui Coelho disse...

Dadas as circunstâncias era seguramente ela quem mais atrapalhada estava, tive de agir em consonância! Mas claro que fiquei atrapalhado, bota situação caricata nisso.