terça-feira, 21 de junho de 2011

What happens in heaven stays in heaven

a culpa é do Mota I

Para chegar até à praia, o gangue do sorriso teve a destreza das lesmas. Diga-se que o pouco agitado trajecto até à praia do Malhão também ajuda: é regular na irregularidade - sarapintado de buracos e terrapó. Por isso mesmo pareceu-nos bem aproveitar cada segundo, parar os carros junto à berma, saltar cá para fora e fazer um filme na terrapó com dança e disparates. Três rádios, três bandas sonoras, três pistas de dança. No carro de trás o Abreu e a Susana, acabadinhos de perder o dia de praia e ganhar o pôr-do -sol, disparavam Battles; no do meio, o meu, o Mota e eu oferecíamos Jackson Five. À frente o menu sonoro da Xana e da Joana D. contemplava o fim de uma qualquer música da Rihanna e logo a seguir o desabafo sobre (in)fidelidade antes de descarregar o autoclismo um dia assinado pelos Santos e Pecadores. Quando nos apercebemos do que se passava no carro delas... bem... o Abreu ficou com as pupilas dilatadas, o Mota enregelou, eu tive um ataque de tosse e a Susana entrou em negação. Mas tudo voltaria à normalidade e seguimos até à berma de uma falésia para ver o mais básico pôr-do-sol da história. Não havia nuvens e o grande ponto amarelo lá no alto nunca chegou a ficar alaranjado. Umas fotos com as super-máquinas analógicas que a malta cool tanto gosta de comprar e glup!, a grande bola de fogo era engolida em molhado. Ainda estou para contemplar aquela morte do dia em África, coisa de postal que os meus pais me contam com o melhor dos exageros desde que me lembro.

Fins-de-semana com Lisboa pelas costas implicam não dar os bons dias ao Dartagnan à entrada do Incógnito, mas são coisa boa, sobretudo quando a viagem é em si mesma um prémio. Fiz a minha pela costa, rumo a Vila Nova de Mil Fontes, recebendo indicações muito precisas para a praia devida, cortesia da Joana D.. “Moco tams na praia d malhao sabes ond fica?na estrada de quem de vem de porto covo para vila nova é do lado direito antes d chegares a brunheria.dpx na estrada de terra sempre em frente dpx a direita numa estrada de areia no meio de arbustos chegas a um parque de estacionamento ond ves um carro pegeout cizento matricula 12LI10 ou 10LI12.desces as dunas e vais para uma praia grande com uma casinha azul mas ns tams para a direita zona das rochas Numa praia pikena.nao tems rede :( vams estando atentos em busca de rede.bjs grands”

a culpa é do Mota II
Quem me conhece sabe minimamente os efeitos nocivos que este tipo de coordenadas podem ter nas minhas ideias, pelo que fui metendo mudanças até Mil Fontes com o meu cérebro a cheirar ao que a carne esturricada cheira. Cheguei a parar e sair do carro em Porto Covo, ponto morto e motor ligado (ai Rui, Rui...) enquanto atravessava a estrada para questionar uma mulher ainda jovem e bem gira, muito provavelmente mãe da equipa de infantis que a rodeava, como raio chegava a Mil Fontes sem placas por ali com a respectiva indicação. Rodeado do meu próprio fumo lá conseguir aparecer naquele buraco balnear, praia do Malhão, depressa por mim apelidada de lua, dada a proximidade. O grupo estava animado e além dos já citados incluía o digno JPC, a activista Joana F., a mui respeitável leoa Maria e a Filipa, aka Fada do Miradouro, sendo que na noite anterior as duas últimas tinham sido consagradas Grãs-mestres dos Mojitos e horas depois despediram-se do Alentejo, de regresso à capital. Naquela areia de ninguém havia jornais, revistas e livros para entreter e muita comida para ‘picar’, faltando apenas, digo eu, disse eu, uma geleira com minis. Mas havia uma bola, o que no meu caso substitui. Ao ver-me pontapear o esférico com a alegria do Chuck Norris quando de noite encara sozinho um grupo de 50 mexicanos a salivar numa rua estreita, o bom Mota confidenciou à mocinha dele, a Joana D., que, a ter um filho, gostaria que fosse eu. “Olha ele ali a divertir-se sozinho, sem incomodar ninguém!”. Babadíssima, a doce Joana D. veio ter comigo, relatou o caso e de pronto me ajoelhei e dei a mão à minha nova mãe, deixando-me levar até junto do meu novo pai enquanto chuchava o polegar.

girls just wanna have fun (a culpa é do Mota III)
Uma das minhas preocupações naquela estadia era o telemóvel, que estava a ficar sem bateria apesar de o ter deixado a carregar algum tempo durante a noite da véspera. Problema à vista. Não por isso de ficar incontactável durante dois dias, que é das coisas mais sedutoras que existem, mas porque combinara encontrar-me com uma amiga numa terriola ali perto, ao fim do dia seguinte. A sucessão de eventos dir-me-ia que mais fácil seria encontrar ouro por ali do que propriamente conseguir vê-la. Mas se não pus os olhos na miúda, foi na companhia da Xana, do Mota e da Joana D. que tive a minha primeira experiência numa praia de nudismo. Rodeados de pilas e grutinhas mais ou menos cuidadas, seguimos como se nada fosse em direcção à cascata pretendida e tomámos um banho de água doce. Um momento ideal para fotos gordurosas à Baywatch e permitir que, a olhos vistos, a água doce fizesse uma reavaliação dos danos que o rei sol nos deixava na pele após várias horas a torrar como gente grande (e parva). Embora parecesse precisa, a leitura dos estragos pouco teve a ver com aquela que agora faço – há bocado passei por mim em frente ao espelho da casa de banho e vi um corpo com queimaduras de algum grau suficiente para já ter solto uns belíssimos “ai foda-se!” àquele pessoal que teima em assinar reencontros com intensas palmadas nas omoplatas alheias. Banhista sofre.

Sendo um moço virado para a cidade, não resisto à serenidade de uma terrinha onde reúnes amigos a beber cerveja ou vinho (Lambrusco, a pancada daquela gente) no pátio de uma casa com cheiro a bisavós enquanto, cito a Joana F., ouves vacas a foder. E se o campo é bom, campo e costa juntos soam ainda melhor. A vida inspira-nos.

a culpa é do Mota IV
A Xana concordará. Apesar, ou devido à beleza dos olhos que nosso senhor o Criador máximo de todas as coisas lhe concedeu, ela nutre uma simpatia muito grande por sweats com capuz, e é com eles a cobrir a cabeça que se costuma movimentar no Bairro Alto e outros. É a forma mais eficiente que encontrou para, dentro do possível, tentar passar despercebida. Ainda assim, em noites boas, as abordagens são a cada cinco minutos. Todos querem ver de perto aqueles faróis que de tão verdes parecem azuis.

Vila Nova de Mil fontes é uma localidade pacífica por esta altura do ano, merecendo pouco a fama que tem de sítio-que-era-giro-e-onde-já-se-esteve-bem-mas-eh!-agora-tem-muita-confusão. De regresso a casa após uma noite calma, com jantar, gelataria, bar e quase discoteca (no templo Sudwest pedem cinco euros sem consumo aos rapazes, mesmo que a casa esteja vazia, o que era o caso), foi-nos recordado que o silêncio era muito prezado por aquelas bandas, nomeadamente pela vizinha do andar de cima. Os meus olhos cruzaram-se com os dela durante a tarde. Vestia de negro, tinha um buço considerável e à falta de mais dentes mordia praticamente em vão o interior da boca. Os hábitos que conservava no trato connosco eram conhecidos da véspera: reclamava durante a noite por não conseguir dormir e nas primeiras horas da manhã vingava-se com uma cassete de folclore alentejano, volume do rádio no máximo. “Oh não!, a puta da velha!”, desabafaria eu pelas oito da matina a remexer-me na cama de olhos esbugalhados por força das circunstâncias.

a culpa é do mota V (e da puta da velha aí no andar de cima)
Neste relato que é um carrossel especialmente egocêntrico, importa referir que tenho o toque de midas, embora ao contrário. Se, do menos para o mais grave, os níveis dessa escala forem um (descuidado), dois (trapalhão) e três (desastre), o meu nível será o quatro, cujo termo-definição permanece por inventar. Isso mesmo se pôde verificar quando paguei o meu jantar com o cartão multibanco levando atrás do recibo um emaranhado de rolos e peças da maquineta. Não tenho culpa.

Ao fim do dia seguinte, com planos alterados face ao desencontro com a minha amiga, despedi-me do gangue do sorriso e ataquei a estrada de terra rumo à de alcatrão. Na reentrada para a estrada nacional, virar à esquerda significava papar quilómetros de volta a Lisboa, onde trabalhava no dia seguinte. Para a direita as placas indicavam Odemira, São Teotónio, Zambujeira do Mar, Algarve. Como eu gosto de pregar surpresas à famelga...




15 comentários:

Di Almeida disse...

Humm Algarve, uma das minhas melhores mora em Portimão :)
Grande fim-de-semana Rui. Não há nada como uma mulher sem dentes e buço para colorir os nossos dias and you know what they say: "mulheres de bigode, ninguém as fode!" portanto há que manter o tom brando e sereno.

PS:Estou admirada contigo!Custa-me a acreditar que ainda não tinhas ido a uma praia de nudismo depois das viagens que já fizeste!Não,não quero insinuar que adoras correr ao lado de pilas mas é algo que pensei que já tinhas feito. :x (fuck, continua a soar mal!)


Beijo ;)

Rui Coelho disse...

Ptm, hein? pergunta-lhe lá onde é que ela jantou no domingo? :D

Ainda tenho pesadelos com a puta da velha.

PS: há sempre aquelas coisas que nunca fizeste e eu que já sou praticamente idoso nunca tinha passado numa praia de nudismo e por exemplo nunca fui a aveiro. E isso das pilas de facto podia soar melhor ahaha*

Di Almeida disse...

Ptm?pré tensão menstrual?
A minha querida amiga está a estudar em Lisboa :) é provável que tenha jantado no seu humilde loft.

PS: Como assim?Nunca foste a Aveiro?Quem és tu?De onde teclas?

Rui Coelho disse...

Ptm, aka Portimão.

Aishh o MIRC, "oi td bem ddtcls" = o tempo dos dinossauros!

Nunca fui a aveiro, mas já fui a uma ilha croata – não teve de ser!

Ana disse...

eu tenho a dizer que vila nova de milfontes não é aconselhável a miúdas que queiram passar uma temporada a descansar sozinhas. ainda existe a mentalidade de que as meninas não podem andar sozinhas. e, se o fazem , não estão no seu juízo perfeito ou então têm um problema grave.

ps - aveiro é linda :)

Di Almeida disse...

ahahahah não posso crer que ele me explicou o que era Ptm. (L)
Tens foto?Idd?Nome? argh.. e lá passava eu noites em claro no grupo #trancepsicadélico e armada em boa nos grupos em que era OP. Se te dissesse o meu nick morrias!
É bom saber que a vida muda.

Rui Coelho disse...

Ana: aconteceu contigo por supuesto, né? espero que tenhas mandado à fava quem de direito e feito a tua vidinha na mesma*

Di: mázinhaaaaa.. :D confundiste-me ali pq disseste que uma das tuas melhores morava em portimão, mas depois já era em lisboa e.. e.. lol ok mereces a metade maior da bolacha. Aposto que o teu nick era Miss Hot Legs 16.

Martini Bianco disse...

Aventura interessante. Quem nunca foi a Vila Nova de Mil Fontes fui eu. De SW alentejano só conheço Sines e gostei, quanto ao resto do Alentejo conheço apenas de passagem mas acho-o demasiado inóspito e deprimente apesar do calor.
Se o Clint Eastwood soubesse dessa localidade teria feito os seus western spaguettis lá em vez de na Itália. Gosto mais das terras do norte :)

Cat disse...

Tu és o "ray-ban men"? Ou és como o wally, estás disfarçado no retrato?

beijos

Rui Coelho disse...

Martini: este alentejo não tem propriamente a beleza natural do norte mas é menos inóspito do que certamente imaginas, este é costa, aconselho-te a fazeres essa viagem porque não te vais arrepender, de certeza. E aliás terás sempre beleza em qualquer lugar - até os cemitérios estão cheios de flores. O bom Clint teria de ir mais para dentro para filmar.

Cat: devo ser das poucas pessoas que conheço que não tem ray ban*

Ana disse...

pois aconteceu. foi mais uma aventurazita a la ana :)

foram todos muito simpaticos. acho que foi o excesso de simpatia por pena que me fez sentir menos bem lá. por muito que eu dissesse que estava bem e só queria aproveitar a praia e por a leitura em dia, ninguem acreditava.

acho que a situaçao limite foi num restaurante recomendado por um amigo meu. supostamente um dos melhores a que ele já foi. da entrada do restaurante à minha mesa acho que passei por todos os funcionários do restaurante com a mensagem "é uma mesa para 1 para esta menina". durante a refeiçao fui abordada quase de 3 em 3 minutos para perguntarem se estava tudo bem ou se estava a gostar da região ou qto tempo ia ficar lá. enfim, ate me convidaram a ir mais cedo no dia seguinte para eles me fazerem companhia. isto para não falar dos olhares observadores que não me largavam... a situação limite foi quando um dos funcionarios, já no fim da refeição, perguntou "mas está tudo bem consigo? a menina está com algum problema?"

pink poison disse...

Sou algarvia... olha vai a Vila Nova de Mil Fontes e experimenta a "tasca do Celso"...
E podes ficar no turismo rural, Portela Nova que até pertence a um amigo, quem sabe uns descontos... :D

Rui Coelho disse...

ana, é caso para dizer, "pu-ta que pa-riu"! - até eu me senti desconfortável só de ler isso.

pink conterrânea: thanks, fica já num papelinho essa deixa*

Ana disse...

foi na tasca do celso que isto aconteceu :)

Ana Roman disse...

Tas moreno por inteiro então! hahaha ;P